Mais sobre generosidade intelectual

mixtape

Era uma vez 4 estudantes de design de Goiânia que se conheceram na faculdade, faziam trabalhos de escola juntos e, quando se formaram, resolveram virar sócios. Juntaram R$ 2.000, alugaram um quartinho no centro da cidade e fundaram a Nitrocorpz.

Um dia os caras tiveram uma idéia. Eles lembraram que designers adoram música – é praxe eles trabalharem com fones de ouvido, perdidos em algum som, enquanto clicam seus mouses em busca do visual perfeito, da organização ideal, do conceito redondo. Criaram um site bem bonito, bem chique, em inglês, chamado Designers Mixtape e começaram a mandar emails para designers que eles admiravam no mundo inteiro pedindo duas coisas: uma seleção de 7 músicas com as quais eles gostam de trabalhar e uma ilustração, que funcionaria como “capa” da “fita cassete digital”. O site, bem legal, é simplesmente isso: uma lista de designers fera de toda parte do mundo. Você clica no nome de um deles, aparece uma imagem bonita e uma lista de 7 músicas para você ouvir. Se você é designer, é um lugar para buscar inspiração nos mesmos sons que inspiram os melhores do mundo.

A Designers Mixed Tape não tem anúncios nem cobra nada dos usuários. Em outras palavras: não tem receita. Não dá grana nenhuma. Mas é uma boa idéia colocada no mundo e assinada pela Nitrocorpz. Foi um jeito de eles entrarem em contato com profissionais que eles curtem do mundo inteiro, e de esses profissionais ficarem sabendo que o pessoal da Nitrocorpz tem idéias legais. Um dia eles receberam um email. Era o Carlos Segura, designer cubano mítico, fundador da Segura Inc de Miami, que eles só conheciam das aulas de história do design na faculdade. Ele estava pedindo para participar do Mixtape. Ninguém conseguiu trabalhar na Nitrocorpz aquele dia.

Pergunte a um homem de negócios tradicional e ele vai dizer que gastar tempo e trabalho com algo que não dá dinheiro é desperdício de recursos, ineficiência, falta de foco. Não é o que o pessoal da Nitrocorpz pensa. Eles viram o estúdio deles crescer, virar referência, receber trabalhos do exterior. Creditar o sucesso só à Mixtape é injusto: as coisas aconteceram para eles também porque eles executam com qualidade o trabalho que fazem. Mas ninguém lá tem dúvidas de que o site grátis ajudou a espalhar o nome do estúdio e a criar uma aura cool e simpática em volta dele.

Ontem, domingo, o pessoal do estúdio provou para a gente que essa aura cool e simpática é merecida. Eles interromperam o fim de semana deles para ir ao estúdio conversar com a gente, contar o que eles fazem e dar dicas preciosas – inteiramente grátis – para a nossa revista. “Generosidade intelectual”, foi como o Felipe Obrer, agitador cultural de Floripa, chamou isso. Ou, nas palavras do pessoal do coletivo Deriva, de Porto Alegre, que traduz livros quase de graça de maneira colaborativa, “colocamos idéias legais no mundo porque achamos que assim o mundo vai ficar mais legal”.

nitrocorpz

Alguns trabalhos da Nitrocorpz

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7 Responses to Mais sobre generosidade intelectual

  1. Pedro Burgos disse:

    Fantástica a história. O que me faz pensar que o projeto secreto poderia virar um apanhado de histórias saborosas da tal “gift economy”. O que cria um problema. Se virar revista, tem de ser gratuita. =) boa sorte!

  2. FineTail disse:

    Taí! Seus problemas se acabaram-se! Podem interromper a viagem, parem de reclamar daquela vaca da Jenniffer, recolham suas tralhas, e voltem ao trabalho! O Pedro encontrou o que vcs tanto procuram. Não queriam fazer fazer uma revista diferente? Pois, então! Façam-na gratuita! :-))))
    Ironias (e estratégias de marketing também) à parte, a generosidade intelectual, que encontramos na rede a todo momento, não se explica tão facilmente. Como algo tão absurdamente simples pode dar tanto prazer a quem utiliza e a quem gratuitamente concede? É assunto para teses de doutorado!
    E vivas à generosidade!

  3. Marck disse:

    Pô, de graça nada, depois eu mando a conta. 😉 Foi bem legal o papo, sucesso a todos.

  4. Celsão disse:

    Caras…é isso. E mais disso!

  5. Claudio disse:

    Acho que o mundo é de graça.

  6. Denis Russo Burgierman disse:

    O mundo é de graça, Claudio? Alguém precisa dizer isso aos donos deste hotel aqui, o “Monumental”. É um pulgueiro sujismundo, e nos arranca R$ 350 por noite. Internet paga extra…

  7. Marck disse:

    Monumental… hehehe

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