Hippie? Nem tanto

Uma comunidade construída num ambiente rural, habitada por algumas dezenas de idealistas, que vivem do que plantam ou do que trocam com os vizinhos, bebem água da chuva, usam suas fezes para adubar a horta, fazem o possível para não produzir lixo e para viver em harmonia. Já sei o que você está pensando: ah, esses hippies…

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Confesso que pensei a mesma coisa quando cheguei à sede do Ipec – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado –, perto da linda Pirenópolis, em Goiás. E a primeira impressão confirmou minha suspeita: estavam lá as casas de barro, os cabelos compridos, a juventude sorridente, as citações de yoga na parede, a horta comunitária.

Mas não precisou muito tempo para eu perceber que o Ipec é muito mais que isso.

– Primeiro: é um centro de pesquisa. Um lugar que experimenta modos de impactar menos a natureza e de viver sustentavelmente e cria formas mais eficientes de replicar essas experiências e espalhá-las pelo mundo.

– Segundo: é uma escola, que forma gente através de cursos e workshops e os solta no mundo para produzirem impacto.

– Terceiro: o Ipec não é um “inimigo do sistema”. Ele presta consultoria para empresas, faz parceria com instituições de todas as partes para que outros adotem as soluções que eles encontram. Acabou de prestar serviço para o Boom Festival, de Portugal, o maior festival de música eletrônica da Europa, para ajudar a reduzir seu impacto ambiental. Fizeram os banheiros do festival, que vão produzir adubo ano depois de um ano.

– Quarto: eles não são “anti-capitalistas”. Como disse o André Soares, que criou o instituto uma década atrás depois de estudar o assunto na Austrália, “capitalismo é a única coisa que temos, o que precisamos é torná-lo ético”. Sim, é verdade que eles recusam patrocínio de empresas que destróem o planeta e querem comprar credibilidade (o que o André chama de “ecowash”). Mas estão dispostos a prestar consultoria para essas mesmas empresas se elas forem realmente sinceras nas suas preocupações ambientais.

Eu disse ao André que achei tudo muito lindo (e o lugar é lindo mesmo), mas será que ele acredita mesmo que pode mudar o mundo? A resposta: “não vamos mudar o mundo. Mas temos ao nosso favor a força da inevitabilidade. É inevitável que o nosso modelo econômico insustentável quebre. O planeta não aguenta. Quando isso acontecer, e vai acontecer, é bom sabermos quais são as alternativas. Nós estamos pesquisando as alternativas. Não estamos pensando em salvar o mundo do apocalipse – estamos pensando no pós-apocalipse. Estamos abrindo trilhas num espaço inexplorado. Talvez uma dessas trilhas nos leve a algum oásis.” Bom, né?

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À esquerda, construção usando o método superadobe – terra local ensacada e batida. Conforto térmico ideal e impacto mínimo. À direita, o sensacional Centro de Convenções.

PS: ah, experimentei o banheiro que transforma cocô em adubo. Cheira melhor do que o banheiro do Hotel Monumental, em Brasília.

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3 Responses to Hippie? Nem tanto

  1. FANTÁSTICO! Grande exemplo. Daria uma bela reportagem para a “nova” revista… Rsss… Estava na casa de minha namorada esses dias folheando a coleção de revistas National Geographic que ela tem, quando, por alguns motivo, pensei em vocês. Pensei nessa aventura de todos vocês, em busca de uma revista diferente. Em busca da melhor revista do mundo. Enquanto lia a National, tentava descobrir porque esta revista é tão aclamada. Não cheguei a nenhuma conclusão. Mas ali eu percebi que esta bela revista tinha alguns detalhes interessantes. Vejamos: é fácil de ler, tem um formato e uma estrutura que nos possibilidade deitar e ler sem ter de dobrar a revista. É uma revista firma. Também é fácil de armazenar. Pode-se colocar uma coleção inteira na estante como se fossem livros (infelizmente, com a Superinteressante isso não é possível, por exemplo). Também possui fotos maravilhosas, que nos fazem perceber ângulos e momentos inusitados. Possui textos maravilhosos, repletos de informações fantásticas. Muita ciência, história, religião, histórias, aventuras, lugares exóticos e mundos fantásticos com pessoas reais. Mas não é uma revista perfeita. Falta música, falta humor, falta Brasil. Acredito que a “nova” revista deva beber de muitas fontes, ser cosmopolita, ser Brasil, ser Argentina, ser viva e livre. Contar histórias de super heróis reais e fictícios. Mostrar mundos diferentes, de formas diferentes. Mostrar o novo e o velho, o ontem, o agora e o depois. Toda vez que tiver algo a dizer a vocês, virei aqui dizer. Boa viagem. Abraços!

  2. Denis Russo Burgierman disse:

    Obrigado, Eliezer! Palavras inspiradoras.

  3. Flausino, L disse:

    Permacultura é massa. Aqui em Olinda, tem um sítio de um cara que passa técnicas e ministra cursos sobre permacultura também. Fico contente como futuro biólogo, ver a mobilizaçnao das pessoas em juntar vidas em cidades (vamo tentar transpor a idéia para uma cidade diferente, mais ecológica) com respeito à natureza.
    Parabéns a todos.

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