Ligando os pontinhos

Foi muito duro deixar Belo Horizonte com a sensação de que ainda tínhamos muita coisa pra ver por lá. Se tem algo que nos acompanha durante todo o nosso percurso é a impressão de não termos tempo pra conhecer tudo (e todos) que a gente queria. Não dá tempo de encontrar nem metade das pessoas que deveríamos/queríamos. Nossos dias são intensos, mas de uma forma estranha, também passam rápido.

Chegamos hoje ao Recife e já temos uma lista imensa de contatos. Deu pra perceber que a cidade está borbulhando. Em meio ao clima de alto verão, a vida cultural por aqui ferve. Mas como somos muito responsáveis, vamos conter a empolgação amanhã e reservar o dia para uma reunião de cúpula. A idéia é conversar sobre a viagem, sobre as pessoas que conhecemos e sobre a revista que a gente quer fazer.

Aos poucos o nosso projeto vai se revelando. Vai surgindo uma curiosidade incrível pra saber que cara a nossa revista vai ter. Mas enquanto ela não toma forma, dá pra arriscar alguns palpites. É só olhar pros pontos em comum dentre a galera que a gente conheceu. Dá pra ir desenhando um espírito do nosso tempo, o zeitgeist que identificamos na estrada:

· A época é de colaboração. De distribuir conhecimento. De ajudar as pessoas a resolver problemas, a se desenvolverem. Essa coisa de guardar segredo, monopolizar conhecimento e ter medo da concorrência foi extinta junto com o guaraná de rolha. Ninguém parece se importar mais com isso. A palavra “concorrência”, aliás, não parece mais fazer muito sentido.

· Chega de lutar contra o capitalismo. O momento é de usar as ferramentas dele da melhor forma possível. Todo mundo já percebeu que o consumo pode ser consciente, que a liberdade é sensacional e a democracia funciona bem. Agora vem o próximo capítulo.

· “Direita” e “esquerda” são apelidos pras nossas mãos. Mas na hora de se rotular politicamente, ninguém quer escolher uma via única. Deu pra perceber isso em pelo menos 80% das nossas conversas. Quase todo mundo gosta de política, se interessa, atua. Mas não se identifica e nem querem levantar bandeira de partido nenhum.

· Ninguém está muito assustado com a crise financeiras dos EUA (ou do Brasil, ou do mundo). Pelo menos não em um nível que modifique muito a vida ou a visão prática das pessoas. Continua todo mundo otimista, acreditando que o país está crescendo e trabalhando pra que isso aconteça mesmo.

· Bom humor é fundamental, essencial, absurdamente necessário. Ao invés de ir pra guerra, essa geração prefere ir pra festa. E já percebeu que essa pode ser uma posição revolucionária. Capaz de consertar o mundo inteiro de uma forma muito mais agradável.

· Todo mundo está cansado de programas de TV, filmes, revistas, jornais etc e tal que subestimam a nossa inteligência. A maior parte das pessoas já aprendeu a procurar no Google quando não entende alguma coisa. O Homer Simpson é um cara legal, mas não é muita gente que se identifica intelectualmente com ele. Tá todo mundo praticamente gritando: “surpreenda-me!”

· O grito “Independência ou morte” faz mais sentido agora do que nunca. Ter seu próprio negócio e não depender de ninguém é o sonho de qualquer um. E passar 20 anos trabalhando em uma grande empresa que não te dá liberdade criativa = morte. Tá, em todas as eras da humanidade todo mundo sempre achou chato ter chefe/patrão. A diferença é que agora as pessoas admitem e partem pra outra, sem constrangimentos. E sem tantos medos.

p.s.: Zeitgeist é também o nome de uma série de dois documentários bem interessantes. Dá pra assistir aqui.

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14 Responses to Ligando os pontinhos

  1. Edney Matias disse:

    Cara,

    acho que é mais ou menos isso aí! Resumidamente é tudo aquilo que conversamos aqui em Foz do Iguaçu sobre o software livre. Bacana é descobrir que essa é que toda um geração está em sintonia.

    Abraços e sucessos!

  2. Denis Russo Burgierman disse:

    Pois é, Edney, aquela conversa em Foz foi muito inspiradora.

  3. Ana Flávia Gama disse:

    Gente,

    tô acompanhando de longe – apesar do primeiro comentário – e achando tudo isso o máximo! Trabalho numa agência de publicidade que só faz internet e mobile, cheia de gente que adora inovação. Já comentei com alguns e passei o link pra todo mundo!

    Tô torcendo!
    Boa sorte!

  4. Paulo disse:

    Tá saindo um belo desenho desse liga pontinhos. =)
    SHOW!!!

  5. Denis Russo Burgierman disse:

    Valeu, Ana Flávia e Paulo!

  6. Rafael Kenski disse:

    Sensacional, essa lista. Apesar da amostra de vocês ser bem enviesada – focada naqueles 10% de pessoas legais, que colocam a mão na massa e fazem diferença no mundo – dá para ter uma boa idéia de um caminho legal para seguir. Eu só tenho certeza de que os outros 90% não querem tanto colaborar, não fazem tanta questão de coisas inteligentes e sequer exigem humor. Mas sigam adiante nessa estrada, que é onde estão as coisas que valem a pena.

  7. Douglas disse:

    Concordo com o Rafael Kenski, 90% das pessoas não ligam para nada… mas se nós ligarmos para elas nós acabaremos não ligando para nada também.
    Eu sou um cara que nunca saiu do estado de SP, que não conhece esse tipo de gente bacana que vocês tem conhecido, e que vocês também são! Se não, não estariam nessa road trip! Mas lendo no blog já dá para sentir que o povo que tá surgindo aqui no Brasil e no mundo é uma galera legal, pra frente e sem medo, mesmo que não seja a maioria, pelo menos dá para saber que essa “minoria” vai fazer a diferença!

  8. Denis Russo Burgierman disse:

    Ah, e tudo bem. Fazemos essa revista pros 10% então. Pelas minhas contas, dá 18 milhões de brasileiros. Tá bom, não tá? 🙂

  9. tobias disse:

    Ae pessoal,
    Pelo visto está mais que comprovado a eficiência desta jornada. Estes pontos levantados são a realidade de muita gente mesmo, e espero que cada vez mais e mais.
    Po, e quero conversar mais, na próxima eu que levo o bloquinho e caneta.
    abraço gente!

  10. Matias Balboa disse:

    O Brasil mostrando sua nova cara…

  11. Douglas disse:

    Bom? Mais do que bom!

  12. Denis Russo Burgierman disse:

    Opa, tobias, traga o bloquinho que dessa vez nós providenciamos a cerveja.

  13. Flausino, L disse:

    Caramba!!! Cês tão acertando na mosca! Ops, no alvo!!! É isso mesmo. É esse o ambiente que eu sinto em Recife (onde moro há 17 anos). Um sentimento de subverter paradigmas antigos, pós-capitalismo financeiro, pós ideologias dicotômicas (tchau socialismo x capitalismo!!! Olá Socialismo + Capitalismo – o melhor de ambos, claro). Cara o que eu queria recomndar em Recife é que cês conhecessem Coletivos ambientais (projetos como o que tento organizar de coleta seletiva), jovens empreededores em comunidades carentes, cultura de morro, o C.E.S.A.R., O Instituto Ricardo Brennand. Por enquanto não lembro mais. Mas tam aí pra trocar em idéia. Em Recife, ou por e-mail e blog no resto do Brasil! Bem Vindos ao Recife!!!

  14. giblanco disse:

    Flausino, pelo jeito estamos conectados mesmo! Acabamos de ir ao C.E.S.A.R. hoje. E foi bem legal… daqui a pouco postamos sobre a nossa visita!
    Abs!

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