Mudança

9 novembro, 2008

Tomei café da manhã na sexta-feira com o mineiro Helder Araújo, que tem uma carreira impressionante. Formou-se em design no Brasil, foi estudar na Fabrica, lá na Itália, celeiro de talento e idéias inovadoras, trabalhou na espetacular revista Colors misturando imagem com antropologia, voltou para o Brasil, mudou-se para São Paulo e virou um profissional disputadíssimo. É contratado por grandes empresas, como Fiat e Adidas, para pensar inovadoramente por elas. O trabalho de Helder pode ser assim: viajar para a China, fotografar e entrevistar gente, fazer uma pesquisa monumental, voltar e desenhar o novo produto de uma empresa. Não é legal? O mais impressionante é que ele conseguiu isso tudo nos primeiros 30 e poucos anos de vida. Ou seja, tem uma longa vida produtiva pela frente.

Tivemos uma conversa longa e bem interessante na qual Helder me ajudou a entender melhor o processo de inovação. Ele contou dos planos dele para o futuro – entre eles lançar um site de organização de conteúdo chamado Spix, que já existe em versão fechada e atualmente está em busca de um investidor para, quem sabe, virar um site-fenômeno-internacional se as coisas derem certo. O cara realmente está sintonizado no futuro e tem um trabalho ambicioso, consistente e planejado.

Mas o que mais gostei de ouvir foi a parte em que o Helder me falou das insatisfações dele. Ele disse que decidiu trabalhar menos para empresas e mais para governos e organizações sociais. Ele quer usar o que ele sabe – seu olhar visionário e atento, seu espírito organizado e focado – para melhorar o mundo. E acha que o momento que estamos passando agora no Brasil e no mundo é o começo de uma transformação absurda na história da humanidade – o derretimento de Wall Street, a mobilização contra o aquecimento global e a eleição de Obama são algus sintomas disso.

Eu disse para ele que queria que ele, de alguma forma, nos ajudasse a pensar nossa nova “revista”. Ele ficou animado com a idéia.

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O dilema QWERTY vs. Dvorak

9 novembro, 2008


No começo da conversa com o pessoal da colmeia (assunto do post anterior) surgiu um assunto que resume boa parte do que veio depois e do que a gente andou encontrando nos últimos dias. O Denis falou de jornalismo das antigas, e do barulho das máquinas de escrever que foi diminuindo nas redações até sumir de vez. E aí o André Passamani lembrou de como é curioso que a gente ainda use o teclado QWERTY por causa do enrosco das teclas das máquinas de escrever.

Para quem não sabe, a disposição das letras no teclado foi feita desse jeito para diminuir as chances de as teclas emperrarem, deixando letras que normalmente vão juntas na língua inglesa longe umas das outras. Lá pelos anos 1930, o americano August Dvorak ajudou a criar um teclado simplificado que reduziria o esforço de digitar em cerca de 20 vezes. O T está do lado do H e pertinho do E, todas as vogais estão juntas e por aí vai. Enquanto o QWERTY tem esse nome por causa das suas seis primeiras letras, o novo padrão ganhou o nome do seu co-criador.

Mas quando os computadores começaram a aparecer, o padrão adotado foi o QWERTY. Como você pode ver pelo teclado aí na sua frente, continua assim até hoje. Aprender a digitar num teclado Dvorak seria começar tudo do zero, aprendendo a fazer aquilo que já era automático de um jeito totalmente diferente.

É um pouco como mudar para software livre, criar vídeo e publicidade para a internet, fazer uma revista diferente dentro de uma empresa gigante. Naquela época o esforço de mudar o padrão de QWERTY para Dvorak aparentemente não valia a pena. Mas sabe-se lá se os índices de LER e tendinite não seriam bem menores hoje se a mudança tivesse acontecido.

A colmeia acredita que o que importa são as idéias. Acredita em qualidade e inteligência, e acha que o que importa não é crescer e ganhar dinheiro, mas ser foda. Eles estão há pouco tempo na estrada – como em qualquer experimento, pode dar tudo certo, pode dar tudo errado. Para bem ou mal, a gente tem bastante coisa em comum.


Conversa dura

8 novembro, 2008

Tivemos ontem uma conversa boa – e dura – com o pessoal que trabalha na Colméia, uma produtora de conteúdo digital (fazem sites, vídeos, jogos, eventos, experiências interativas, tudo muito criativo e com uma qualidade assustadora). Contei para eles do nosso plano de fazer uma “revista” e dei uma pincelada numa idéia que anda me martelando a cabeça. A de que essa “revista” podia trabalhar de um jeito diferente. Em vez de ser uma comunicação vertical – dos jornalistas que tudo sabem lá no alto para o público ignorante aqui embaixo, como as revistas costumam ser –, ser mais horizontal. Estabelecer sociedade com colaboradores, fazer parcerias com gente legal, trabalhar junto e borrar as fronteiras entre revista e público.

O André Passamani, um dos donos da Colméia, um sujeito de mente superativa, que não consegue evitar ter uma idéia atrás da outra, foi super-cético em relação a conseguirmos fazer isso. Ele disse que a Abril é uma empresa de mídia, e o negócio das empresas de mídia é ser dono do conteúdo. Empresa de mídia, para ele, nunca vai abrir mão dessa propriedade, se fizer isso perde o sentido de existir. O Passamani, como o resto do pessoal da Colméia, acredita no software livre – programas de computador devem ser feitos, usados e entregues de graça para quem mais quiser usar pedaços dele, melhorar e usar de novo, sem precisar ter que refazer trabalho algum. Ele acha que o futuro é povoado por empresas menores (diz que a Colméia nunca vai ter mais que 90 pessoas), de gente talentosa, apaixonada pelo que faz, tratando bem umas às outras e fazendo coisas de qualidade.

Legal, concordo. E acredito muito que esse nosso projeto_secreto pode dar origem a uma empresa dessas, dentro da Abril.

Recomendo muito a você fuçar o site da Colméia e ver as coisas que eles fazem. O blog tem links para vídeos legais, a maioria deles para clientes publicitários. Você pode por exemplo jogar o War ecológico online que eles desenvolveram pro Greenpeace. Os caras estão começando também a fazer seus próprios programas de tv para a internet, disponíveis na Enxame TV (enxame não é um lugar, é um movimento). Arme-se de paciência porque a qualidade é alta o vídeo demora a baixar (dê pause, pegue um livro, vá ao banheiro e assista na volta).

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O que é uma revista?

7 novembro, 2008

Que legal ver que o blog bombou. Um monte de gente está acessando e mandando sugestões. Muitas idéias legais chegaram e estamos empolgados, ainda mais porque é só o começo. Quero só fazer um comentário:

Recebemos muitas idéias de conteúdo – matérias que podemos fazer, seções etc. Mas pouca gente escreveu para ajudar a gente com conceitos: dar idéias de o que a nossa revista pode ser. Quando eu falo “revista”, vem a cabeça a imagem de um maço de folhas impressas grampeadas. Legal, tá certo, isso é uma revista. Mas será que a gente não devia reinventar a revista, repensar o básico? Revistas podem ser eletrônicas, digitais. Como eu escrevi em algum lugar, revista pode ser uma caixinha cheia de coisinhas legais que chega pelo correio.

Enfim, este post é para provocar vocês. Pode viajar nas suas idéias. Pode sugerir novos formatos, novos materiais, novas metodologias de trabalho, novas formas de fazer tudo. Vamos sonhar! Vamos inovar! Depois a realidade se impõe e a gente faz força para colocar o pé no chão, mas agora é o momento de não ter freios. Qualquer idéia é bem vinda!

Ah, sim, uma novidade: nossa viagem já tem data marcada. Dia 11, terça-feira, vamos para a estrada engolir poeira. Te vejo lá.


Brinquedos

6 novembro, 2008

Uma coisa a gente já sabe sobre os adultos de hoje: eles continuam gostando de brinquedo. Sabem muito bem que esses objetos que alegram nossa vida não são só coisa de criança. O sucesso do toy art está aí pra provar isso, cada vez ganhando mais força (e custando mais caro). Os meus preferidos são os bonecos da Tokidoki.

O dos obamistas, deve ser esse aqui:

boneco-obama

E o seu?


Reinventor de coisas

5 novembro, 2008

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Hoje fomos conhecer outro sujeito legal, o Barão – Flavio Barão De Sarno, 30 anos -, lá na empresa dele, a NóDesign, na Vila Madalena, em São Paulo. O trabalho dele é reinventar coisas: um cabide que não esgarça a gola, uma saboneteira feita de restos de sacola e que não junta água, um celular para quem não quer aprender a lidar com botões, uma cadeira que não desperdiça um milímetro de madeira e pode ser guardada sem ocupar espaço, uma bolsa-quadro inspirada em refletores dobráveis de fotógrafos, essa porta que eu fiquei tentando descrever com palavras sem nenhum sucesso:
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Quando precisa explicar para alguém o que faz da vida, Barão diz que é designer de produtos, mas no fundo ele sabe que é mais que isso: ele é um inovador. O trabalho dele é descobrir do que as pessoas precisam e surpreendê-las com o que elas querem. É também repensar conceitos etéreos como “sustentabilidade” e torná-los paupáveis. Todos os objetos deles tem intenção, nada é assim só porque é assim. O pregador de roupa acoplado ao cabide foi imaginado depois que eles observaram que cabides comuns tendem a escorregar para o meio do varal.

Ele ficou contando para a gente como se inova. Primeiro se lista um monte de coisas que dá para fazer. Depois se observa. Depois se observa mais a fundo, tentando entender como as coisas são feitas e como elas são usadas. Depois começa-se a construir a solução para o problema, de um jeito propositalmente tosco, para não perder tempo demais com isso. Barão chama isso de porcótipo, versão imunda do protótipo. Aí se testa o porcótipo, sem piedade: idéias que parecem geniais a primeira vista às vezes não passam pelo primeiro olhar de uma dona de casa exigente. Aí vai se melhorando até ficar bom pacas. Olhando o portfólio dos caras, parece que o método funciona.

Mas o mais louco é que o Barão não se considera um fabricante de objetos simplesmente: ele é mais um resolvedor de problemas. O método dele não serve só para saboneteiras ou potes de shampoo. Bem empregado, ele talvez possa se aplicar a sistemas de trânsito, métodos de ensino, organização de gente, projetos de hospitais. Andando pela sede da empresa, nosso serviço de inteligência detectou num mural na parede o segrego de seu sucesso. Em primeira mão, adianto para vocês o ultra secreto método NóDesign de resolução de problemas:

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Vamos todos virar manteiga?

5 novembro, 2008

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Começamos a nossa aventura conversando com os ciberativistas / ciclistas / educadores / programadores / malabaristas membros de um hacklab aqui em São Paulo.

E aí você pergunta: o que diabos é um hacklab?

Hacklabs são grupos que desenvolvem tecnologias de software livre e mídia alternativa como incentivo à cultura, educação e mudanças sociais. Esse hacklab ainda não tem um nome oficial, então eles aportuguesaram a expressão e se referem a eles mesmos como um raquilabi. Além de criar e administrar websites e oferecer soluções para vários tipos de clientes, eles são um dos grupos que ajudou a levar o software livre para o Ministério da Cultura, e estão envolvidos na ação Pontos de Cultura, incentivo a instituições por todo o país que fazem o conhecimento circular. Não é legal ter que resumir o que esses caras fazem, sozinhos ou em rede, em poucas linhas. Porque é muita coisa, e é coisa grande. Mas também não dá para segurar informação e não abrir o código, então confira os melhores momentos clicando em “ler o resto” aí embaixo. Ou gaste uns 5 minutos pra ver nosso vídeo no youtube.

Pintura: Churning Butter (1868), Jean-François Millet

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