Workshop de sedução

6 fevereiro, 2009

A reportagem-HQ de Allan Sieber publicada na Playboy em 2007, recomendada pelo André Dahmer como uma das melhores coisas que o Allan já fez, é realmente imperdível.

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Continua aqui.

O único problema é que o blog do Allan é tão ruim que não tem sequer um permalink para cada post. Pior até que os blogs da Abril. Pô, Allan, muda para o WordPress!


Belém por procuração

10 dezembro, 2008

Marcel Arede

Depois de horas sem fim de vôos e caos aéreo, estamos em Belém do Pará – o éden do tecnobrega, o reino das sorveterias de sabores impronunciáveis, o clímax da viagem, a terra prometida onde todas as peças do quebra-cabeça vão se encaixar.

É mentira, viu? Continuamos no Rio, sentindo que Belém foi uma (foi A) grande ausência da nossa jornada. Mas não podemos dizer que não descobrimos várias coisas sobre aquele muito longe lá no Norte, graças ao Marcel Arede (de azul na foto), que encontramos em Brasília. Ele é produtor cultural e organizador do Festival Se Rasgum, eventão de bandas indie que teva sua 3a edição agora em setembro.

Diz a lenda que o nome foi inspirado num puxador de uma quadrilha gay de Belém que ficava berrando “Vai, suas bicha! Dançum! SE RASGUM!”.  Diz se não é pra ganhar prêmio de melhor nome de festival de todos os tempos.

A imagem que o Marcel ajudou a compôr foi a de um paraíso (ou inferno) hedonista, onde reinam as aparelhagens, o ecstasy custa 5 reais e as festas não acabam nunca. Disse que “o Chimbinha é o cara mais inteligente que eu já conheci”, e revelou que tem MUITA música sertaneja na terra da Banda Calypso, graças à migração de gente do centro-oeste com a expansão do gado e da soja.

O Denis deve ter muito a acrescentar sobre o assunto, então eu passo a palavra.

Não fomos a Belém, mas falamos de lá quase todo dia da nossa viagem. É que todo mundo que foi voltou impressionado com o ritmo em que o mundo está mudando à beira da floresta. Cada entrevistado nosso contou um pouquinho. Temos uma certeza só: a de que Belém pode até não ter entrado na nossa viagem, mas certamente estará na nossa revista.


Azucrinando

1 dezembro, 2008

Um grupo de designers e músicos de BH, cada um com seu emprego, se juntaram em 2007 e criaram um coletivo, o Azucrina. No começo a idéia era trabalhar juntos para clientes. Eles até fizeram umas coisas comerciais (bem legais), mas chegaram à conclusão de que o Azucrina não é um escritório. Não é um lugar para executar idéias dos outros, é para ter as próprias idéias. Hoje o Azucrina meio que evita trabalhos comerciais (embora eles não tenham nada contra ganhar dinheiro nem descartem a hipótese de que acabem criando algo legal que, no final, ganhe dinheiro). O negócio deles é ter idéias, doidas, e fazê-las acontecer com a ajuda uns dos outros. Como o Rotatória, um show de rock numa rotatória no meio de uma avenida que acaba quando a polícia chega. Ou essa sutil intervenção contra a sujeira na cidade na época de eleições aí do vídeo abaixo.

Adoramos a conversa e o pique dos caras. Todo mundo muito gente boa, muito generoso em repartir idéias e a fim de experimentar coisas. Mais um indício de que a lógica do mundo está mudando e já não pode ser explicada apenas pelas contas de mais e menos das planilhas de Excel.


Hippie? Nem tanto

30 novembro, 2008

Uma comunidade construída num ambiente rural, habitada por algumas dezenas de idealistas, que vivem do que plantam ou do que trocam com os vizinhos, bebem água da chuva, usam suas fezes para adubar a horta, fazem o possível para não produzir lixo e para viver em harmonia. Já sei o que você está pensando: ah, esses hippies…

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Confesso que pensei a mesma coisa quando cheguei à sede do Ipec – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado –, perto da linda Pirenópolis, em Goiás. E a primeira impressão confirmou minha suspeita: estavam lá as casas de barro, os cabelos compridos, a juventude sorridente, as citações de yoga na parede, a horta comunitária.

Mas não precisou muito tempo para eu perceber que o Ipec é muito mais que isso.

– Primeiro: é um centro de pesquisa. Um lugar que experimenta modos de impactar menos a natureza e de viver sustentavelmente e cria formas mais eficientes de replicar essas experiências e espalhá-las pelo mundo.

– Segundo: é uma escola, que forma gente através de cursos e workshops e os solta no mundo para produzirem impacto.

– Terceiro: o Ipec não é um “inimigo do sistema”. Ele presta consultoria para empresas, faz parceria com instituições de todas as partes para que outros adotem as soluções que eles encontram. Acabou de prestar serviço para o Boom Festival, de Portugal, o maior festival de música eletrônica da Europa, para ajudar a reduzir seu impacto ambiental. Fizeram os banheiros do festival, que vão produzir adubo ano depois de um ano.

– Quarto: eles não são “anti-capitalistas”. Como disse o André Soares, que criou o instituto uma década atrás depois de estudar o assunto na Austrália, “capitalismo é a única coisa que temos, o que precisamos é torná-lo ético”. Sim, é verdade que eles recusam patrocínio de empresas que destróem o planeta e querem comprar credibilidade (o que o André chama de “ecowash”). Mas estão dispostos a prestar consultoria para essas mesmas empresas se elas forem realmente sinceras nas suas preocupações ambientais.

Eu disse ao André que achei tudo muito lindo (e o lugar é lindo mesmo), mas será que ele acredita mesmo que pode mudar o mundo? A resposta: “não vamos mudar o mundo. Mas temos ao nosso favor a força da inevitabilidade. É inevitável que o nosso modelo econômico insustentável quebre. O planeta não aguenta. Quando isso acontecer, e vai acontecer, é bom sabermos quais são as alternativas. Nós estamos pesquisando as alternativas. Não estamos pensando em salvar o mundo do apocalipse – estamos pensando no pós-apocalipse. Estamos abrindo trilhas num espaço inexplorado. Talvez uma dessas trilhas nos leve a algum oásis.” Bom, né?

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À esquerda, construção usando o método superadobe – terra local ensacada e batida. Conforto térmico ideal e impacto mínimo. À direita, o sensacional Centro de Convenções.

PS: ah, experimentei o banheiro que transforma cocô em adubo. Cheira melhor do que o banheiro do Hotel Monumental, em Brasília.


Arte de rua em Goiânia

26 novembro, 2008

Eu e Furacão (minha bike) saímos por Goiânia fotografando graffiti.


Jennifer é uma vaca

24 novembro, 2008

“Antigamente”, para se chegar a algum lugar de carro numa cidade desconhecida, você tinha que parar, perguntar, andar um pouco, perguntar de novo, andar mais um tanto, perguntar outra vez. Agora não. Tem o GPS. Ou, no nosso caso, a Jennifer, que foi o nome que demos a ela, em homenagem à voz feminina e ao sotaque britânico com o qual ela diz sabedorias como “route recalculation”.

Tem dias em que a Jennifer é sensacional. Como quando marcamos uma entrevista com alguém numa cidade nova, pegamos a moça, digitamos o endereço e chegamos ao lugar em cinco minutos. “Arriving to your destination”, ela avisa, impecável. Mas tem dias em que, se vocês estivessem no carro, me ouviriam resmungar: “Jennifer, você é uma vaca”.

Não sei se ela foi mal programada ou se é o satélite que não tem precisão em cidades “secundárias”, como Goiânia. Em São Paulo, ela funciona bem e entende as regras do trânsito o suficiente para não me mandar entrar na contramão. Mas, na maioria das cidades por onde passamos, incluindo Porto Alegre, Florianópolis e Goiânia, ela desconhece completamente os mais básicos princípios de civilidade. Confunde ruas paralelas, me incentiva a fazer conversões proibidas, sugere que eu atravesse a ilha no meio das duas pistas, acha que a placa de contramão é decorativa.

Ontem, voltando do Goiânia Noise Festival às 5 da manhã, depois de dar duas ou três voltas no quarteirão tentando sem sucesso chegar ao hotel, me rendi aos conselhos infames da Jennifer e cometi uma falta tripla: conversão proibida + na contramão + no sinal vermelho. Flash. Ou os paparazzi me descobriram em Goiânia ou acabei de tomar uma multa absolutamente irrecorrível. Eu gostaria de dedicar essa multa à Visteon, fabricante do GPS, à GM, fabricante do Vectra que tem o GPS Visteon como item de fábrica, e à Jennifer, sem a qual nada disso seria possível.

Agora cheguei no hotel, coloquei o cartão magnético na porta e a luz verde não acendeu. O cartão tinha desmagnetizado.

Tecnologia é jóia. Mas é mais legal quando ela faz alguma coisa por mim.

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Da esquerda para a direita: Jennifer, mão, porcos viajando em condições mais precárias que nós, fitinha de São Google.


O dilema QWERTY vs. Dvorak

9 novembro, 2008


No começo da conversa com o pessoal da colmeia (assunto do post anterior) surgiu um assunto que resume boa parte do que veio depois e do que a gente andou encontrando nos últimos dias. O Denis falou de jornalismo das antigas, e do barulho das máquinas de escrever que foi diminuindo nas redações até sumir de vez. E aí o André Passamani lembrou de como é curioso que a gente ainda use o teclado QWERTY por causa do enrosco das teclas das máquinas de escrever.

Para quem não sabe, a disposição das letras no teclado foi feita desse jeito para diminuir as chances de as teclas emperrarem, deixando letras que normalmente vão juntas na língua inglesa longe umas das outras. Lá pelos anos 1930, o americano August Dvorak ajudou a criar um teclado simplificado que reduziria o esforço de digitar em cerca de 20 vezes. O T está do lado do H e pertinho do E, todas as vogais estão juntas e por aí vai. Enquanto o QWERTY tem esse nome por causa das suas seis primeiras letras, o novo padrão ganhou o nome do seu co-criador.

Mas quando os computadores começaram a aparecer, o padrão adotado foi o QWERTY. Como você pode ver pelo teclado aí na sua frente, continua assim até hoje. Aprender a digitar num teclado Dvorak seria começar tudo do zero, aprendendo a fazer aquilo que já era automático de um jeito totalmente diferente.

É um pouco como mudar para software livre, criar vídeo e publicidade para a internet, fazer uma revista diferente dentro de uma empresa gigante. Naquela época o esforço de mudar o padrão de QWERTY para Dvorak aparentemente não valia a pena. Mas sabe-se lá se os índices de LER e tendinite não seriam bem menores hoje se a mudança tivesse acontecido.

A colmeia acredita que o que importa são as idéias. Acredita em qualidade e inteligência, e acha que o que importa não é crescer e ganhar dinheiro, mas ser foda. Eles estão há pouco tempo na estrada – como em qualquer experimento, pode dar tudo certo, pode dar tudo errado. Para bem ou mal, a gente tem bastante coisa em comum.