A gangorra

28 janeiro, 2009

gangorra

Bão, de volta ao trabalho duro. Esta semana devemos começar a construir de verdade nossa revista nova – até agora só pensamos no conceito central da coisa. Estou louco para contar mais detalhes para vocês, mas por enquanto não posso. Estou esperando o Jurídico da Abril fazer o registro da marca. Senão, você vai lá, registra antes de mim, fica megamultimilionário enquanto eu fico largado na rua da amargura pedindo trocado.

Mas sou péssimo em guardar segredos, então vou deixar escapar alguma coisinha aqui. Aliás, alguma coisinha nada, vou contar a idéia central: nosso plano não é exatamente criar uma revista. É criar duas coisas:

1. Uma revista, que tenha como valores fundamentais transparência, parceria, irreverência, design, sustentabilidade, inovação.

2. Um selo. O selo é um lugar para construir parcerias. A idéia do selo não é fazer coisas e ser dono delas – é ajudar a fazer coisas e ser sócio delas. Em outras palavras: é difundir idéias legais e ajudar gente legal a fazer coisas legais.

Expliquei na reunião que o plano é fazer o projeto funcionar como uma gangorra – revista de um lado, selo do outro. Revista é o que a Abril sabe fazer. Selo é o que a Abril não sabe fazer. No começo a revista é grande e o selo pequenininho, super experimental. Mas o selo, como é colaborativo e flexível, tem um baita potencial de crescer e se tornar muito maior que a revista. O selo é o lugar onde vamos experimentar e inventar o século 21.

Que tal?


Azucrinando

1 dezembro, 2008

Um grupo de designers e músicos de BH, cada um com seu emprego, se juntaram em 2007 e criaram um coletivo, o Azucrina. No começo a idéia era trabalhar juntos para clientes. Eles até fizeram umas coisas comerciais (bem legais), mas chegaram à conclusão de que o Azucrina não é um escritório. Não é um lugar para executar idéias dos outros, é para ter as próprias idéias. Hoje o Azucrina meio que evita trabalhos comerciais (embora eles não tenham nada contra ganhar dinheiro nem descartem a hipótese de que acabem criando algo legal que, no final, ganhe dinheiro). O negócio deles é ter idéias, doidas, e fazê-las acontecer com a ajuda uns dos outros. Como o Rotatória, um show de rock numa rotatória no meio de uma avenida que acaba quando a polícia chega. Ou essa sutil intervenção contra a sujeira na cidade na época de eleições aí do vídeo abaixo.

Adoramos a conversa e o pique dos caras. Todo mundo muito gente boa, muito generoso em repartir idéias e a fim de experimentar coisas. Mais um indício de que a lógica do mundo está mudando e já não pode ser explicada apenas pelas contas de mais e menos das planilhas de Excel.


O verdadeiramente positivo

18 novembro, 2008

O projeto_secreto recebeu uma dica de um leitor chamado Daniel. Ele deixou um comentário no blog sugerindo que procurássemos o lama Padma Samten, em Viamão, na beiradinha de Porto Alegre. Obrigado, Daniel, foi uma conversa sensacional.

Fomos ao centro budista na Estrada do Caminho do Meio esperando lições espirituais pouco conectadas com o mundo real. Surpresa. Acabamos falando de Obama, da crise econômica mundial, das deficiênias das revistas brasileiras, em especial da Veja, e do que está errado no mundo. O lama nos contou que muita gente acredita que o budismo prega o isolamento do mundo real, mas que há aí um grande engano: o que ele quer é interferir no mundo, mudá-lo.

Segundo ele, a Terra foi colonizada por alienígenas. Não, não ETs verdes antenudos. Ele estava falando de um pensamento alienígena: o pensamento econômico, que converte tudo em dinheiro e que está em conflito com a humanidade. A crise mundial, diz o lama, é conseqüência disso.

Como viver nesse mundo? “Precisamos localizar o que é verdadeiramente positivo e manter-se dentro dele na medida do possível de um jeito verdadeiramente positivo.” Engraçado como esse conselho soou parecido com coisas que ouvimos de outras pessoas por aí, inclusive de um cara que se considera ateu, o Pereira.

Aproveitei para pedir um conselho. Como criar uma revista diferente, fora da tal lógica alienígena? A resposta dele me deixou animado. “Façam o que estão fazendo. Conversem com as pessoas. Não pensem no benefício econômico. Pensem em servir as pessoas.”


Universo desconhecido

13 novembro, 2008

Tem coisas acontecendo no Brasil que minha vã filosofia mal suspeitava. Pegue por exemplo a Hoplon, empresa brazuca que faz o Taikodom, um videogame massivo online de ficção científica. Começou numa salinha acanhada numa incubadora de empresas de tecnologia no alto de um morro com vista para o mar lindo de Floripa. Se espalhou pelos andares do prédio e hoje ocupa 5 salas onde 110 pessoas trabalham feito loucas para conceber, construir e gerenciar um universo virtual onde milhares de jogadores pelo mundo passam seu tempo.

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Taikodom é um empreendimento gigante, ousado, bancado por capital de risco de um investidor e movido a talento jovem e nerd (bonequinhos do Poderoso Thor e do ET e um tabuleiro de Dungeons e Dragons dividem o espaço nas prateleiras com livros técnicos complicadíssimos). Passeamos por lá hoje, boqueabertos. Estava todo mundo ocupado prá caramba construindo um universo, então não deu para batermos longos papos, mas trocamos idéia com muita gente. Todos pareciam orgulhosíssimos de fazer o maior game do Brasil e felicíssimos de passar suas vidas profissionais naquele ambiente onde se pode trabalhar sem sapatos e de bermudas.

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O Murilo, por exemplo, que trabalha na TI, disse que adora o emprego. Eu perguntei se, no fundo, trabalhar na TI de um game não é a mesma coisa do que na TI de uma empresa. É, ele admitiu. Mas, por outro lado, não é. Ele trocou o emprego numa firma por esse, para ganhar a mesma coisa, e tem certeza de que fez bom negócio. “Aqui só se usa camisa de botão na entrevista de emprego”, disse. Essa informalidade, essa diversão, essa paixão vale mais que o salário para ele. E contar para os amigos que se trabalha no Taikodom tem um valor que o dinheiro não paga.

Demais. Senti que eu estava descobrindo um outro universo, que eu nem sabia que existia no Brasil. E confirmei a hipótese que se desenhou ontem com os estudantes de jornalismo com quem conversamos: para cada vez mais gente, realização profissional se mede pela sensação de fazer parte de algo incrível, e não pelo salário.

Precisamos entender isso se queremos fazer uma revista relevante para essa geração.


Dura vida de pesquisador

13 novembro, 2008

Dizem as regras da boa pesquisa que, para realmente entender seus entrevistados, você precisa conseguir se colocar no lugar dele, empatizar com ele. Ou seja, ajuda se você se comportar como ele, agir como ele, de forma a entender o que ele está pensando. Ontem à noite nos encontramos com um grupo de estudantes universitários. Como precisávamos empatizar com eles, não tivemos outra saída: enchemos a cara junto com a rapaziada.

Agora 9 da manhã, ressaca desgracenta, e a primeira entrevista do dia é daqui a uns minutinhos. Quem disse que fazer pesquisa ia ser fácil?

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Conversa dura

8 novembro, 2008

Tivemos ontem uma conversa boa – e dura – com o pessoal que trabalha na Colméia, uma produtora de conteúdo digital (fazem sites, vídeos, jogos, eventos, experiências interativas, tudo muito criativo e com uma qualidade assustadora). Contei para eles do nosso plano de fazer uma “revista” e dei uma pincelada numa idéia que anda me martelando a cabeça. A de que essa “revista” podia trabalhar de um jeito diferente. Em vez de ser uma comunicação vertical – dos jornalistas que tudo sabem lá no alto para o público ignorante aqui embaixo, como as revistas costumam ser –, ser mais horizontal. Estabelecer sociedade com colaboradores, fazer parcerias com gente legal, trabalhar junto e borrar as fronteiras entre revista e público.

O André Passamani, um dos donos da Colméia, um sujeito de mente superativa, que não consegue evitar ter uma idéia atrás da outra, foi super-cético em relação a conseguirmos fazer isso. Ele disse que a Abril é uma empresa de mídia, e o negócio das empresas de mídia é ser dono do conteúdo. Empresa de mídia, para ele, nunca vai abrir mão dessa propriedade, se fizer isso perde o sentido de existir. O Passamani, como o resto do pessoal da Colméia, acredita no software livre – programas de computador devem ser feitos, usados e entregues de graça para quem mais quiser usar pedaços dele, melhorar e usar de novo, sem precisar ter que refazer trabalho algum. Ele acha que o futuro é povoado por empresas menores (diz que a Colméia nunca vai ter mais que 90 pessoas), de gente talentosa, apaixonada pelo que faz, tratando bem umas às outras e fazendo coisas de qualidade.

Legal, concordo. E acredito muito que esse nosso projeto_secreto pode dar origem a uma empresa dessas, dentro da Abril.

Recomendo muito a você fuçar o site da Colméia e ver as coisas que eles fazem. O blog tem links para vídeos legais, a maioria deles para clientes publicitários. Você pode por exemplo jogar o War ecológico online que eles desenvolveram pro Greenpeace. Os caras estão começando também a fazer seus próprios programas de tv para a internet, disponíveis na Enxame TV (enxame não é um lugar, é um movimento). Arme-se de paciência porque a qualidade é alta o vídeo demora a baixar (dê pause, pegue um livro, vá ao banheiro e assista na volta).

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