A gangorra

28 janeiro, 2009

gangorra

Bão, de volta ao trabalho duro. Esta semana devemos começar a construir de verdade nossa revista nova – até agora só pensamos no conceito central da coisa. Estou louco para contar mais detalhes para vocês, mas por enquanto não posso. Estou esperando o Jurídico da Abril fazer o registro da marca. Senão, você vai lá, registra antes de mim, fica megamultimilionário enquanto eu fico largado na rua da amargura pedindo trocado.

Mas sou péssimo em guardar segredos, então vou deixar escapar alguma coisinha aqui. Aliás, alguma coisinha nada, vou contar a idéia central: nosso plano não é exatamente criar uma revista. É criar duas coisas:

1. Uma revista, que tenha como valores fundamentais transparência, parceria, irreverência, design, sustentabilidade, inovação.

2. Um selo. O selo é um lugar para construir parcerias. A idéia do selo não é fazer coisas e ser dono delas – é ajudar a fazer coisas e ser sócio delas. Em outras palavras: é difundir idéias legais e ajudar gente legal a fazer coisas legais.

Expliquei na reunião que o plano é fazer o projeto funcionar como uma gangorra – revista de um lado, selo do outro. Revista é o que a Abril sabe fazer. Selo é o que a Abril não sabe fazer. No começo a revista é grande e o selo pequenininho, super experimental. Mas o selo, como é colaborativo e flexível, tem um baita potencial de crescer e se tornar muito maior que a revista. O selo é o lugar onde vamos experimentar e inventar o século 21.

Que tal?

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Belém por procuração

10 dezembro, 2008

Marcel Arede

Depois de horas sem fim de vôos e caos aéreo, estamos em Belém do Pará – o éden do tecnobrega, o reino das sorveterias de sabores impronunciáveis, o clímax da viagem, a terra prometida onde todas as peças do quebra-cabeça vão se encaixar.

É mentira, viu? Continuamos no Rio, sentindo que Belém foi uma (foi A) grande ausência da nossa jornada. Mas não podemos dizer que não descobrimos várias coisas sobre aquele muito longe lá no Norte, graças ao Marcel Arede (de azul na foto), que encontramos em Brasília. Ele é produtor cultural e organizador do Festival Se Rasgum, eventão de bandas indie que teva sua 3a edição agora em setembro.

Diz a lenda que o nome foi inspirado num puxador de uma quadrilha gay de Belém que ficava berrando “Vai, suas bicha! Dançum! SE RASGUM!”.  Diz se não é pra ganhar prêmio de melhor nome de festival de todos os tempos.

A imagem que o Marcel ajudou a compôr foi a de um paraíso (ou inferno) hedonista, onde reinam as aparelhagens, o ecstasy custa 5 reais e as festas não acabam nunca. Disse que “o Chimbinha é o cara mais inteligente que eu já conheci”, e revelou que tem MUITA música sertaneja na terra da Banda Calypso, graças à migração de gente do centro-oeste com a expansão do gado e da soja.

O Denis deve ter muito a acrescentar sobre o assunto, então eu passo a palavra.

Não fomos a Belém, mas falamos de lá quase todo dia da nossa viagem. É que todo mundo que foi voltou impressionado com o ritmo em que o mundo está mudando à beira da floresta. Cada entrevistado nosso contou um pouquinho. Temos uma certeza só: a de que Belém pode até não ter entrado na nossa viagem, mas certamente estará na nossa revista.


Hippie? Nem tanto

30 novembro, 2008

Uma comunidade construída num ambiente rural, habitada por algumas dezenas de idealistas, que vivem do que plantam ou do que trocam com os vizinhos, bebem água da chuva, usam suas fezes para adubar a horta, fazem o possível para não produzir lixo e para viver em harmonia. Já sei o que você está pensando: ah, esses hippies…

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Confesso que pensei a mesma coisa quando cheguei à sede do Ipec – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado –, perto da linda Pirenópolis, em Goiás. E a primeira impressão confirmou minha suspeita: estavam lá as casas de barro, os cabelos compridos, a juventude sorridente, as citações de yoga na parede, a horta comunitária.

Mas não precisou muito tempo para eu perceber que o Ipec é muito mais que isso.

– Primeiro: é um centro de pesquisa. Um lugar que experimenta modos de impactar menos a natureza e de viver sustentavelmente e cria formas mais eficientes de replicar essas experiências e espalhá-las pelo mundo.

– Segundo: é uma escola, que forma gente através de cursos e workshops e os solta no mundo para produzirem impacto.

– Terceiro: o Ipec não é um “inimigo do sistema”. Ele presta consultoria para empresas, faz parceria com instituições de todas as partes para que outros adotem as soluções que eles encontram. Acabou de prestar serviço para o Boom Festival, de Portugal, o maior festival de música eletrônica da Europa, para ajudar a reduzir seu impacto ambiental. Fizeram os banheiros do festival, que vão produzir adubo ano depois de um ano.

– Quarto: eles não são “anti-capitalistas”. Como disse o André Soares, que criou o instituto uma década atrás depois de estudar o assunto na Austrália, “capitalismo é a única coisa que temos, o que precisamos é torná-lo ético”. Sim, é verdade que eles recusam patrocínio de empresas que destróem o planeta e querem comprar credibilidade (o que o André chama de “ecowash”). Mas estão dispostos a prestar consultoria para essas mesmas empresas se elas forem realmente sinceras nas suas preocupações ambientais.

Eu disse ao André que achei tudo muito lindo (e o lugar é lindo mesmo), mas será que ele acredita mesmo que pode mudar o mundo? A resposta: “não vamos mudar o mundo. Mas temos ao nosso favor a força da inevitabilidade. É inevitável que o nosso modelo econômico insustentável quebre. O planeta não aguenta. Quando isso acontecer, e vai acontecer, é bom sabermos quais são as alternativas. Nós estamos pesquisando as alternativas. Não estamos pensando em salvar o mundo do apocalipse – estamos pensando no pós-apocalipse. Estamos abrindo trilhas num espaço inexplorado. Talvez uma dessas trilhas nos leve a algum oásis.” Bom, né?

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À esquerda, construção usando o método superadobe – terra local ensacada e batida. Conforto térmico ideal e impacto mínimo. À direita, o sensacional Centro de Convenções.

PS: ah, experimentei o banheiro que transforma cocô em adubo. Cheira melhor do que o banheiro do Hotel Monumental, em Brasília.


Universo desconhecido

13 novembro, 2008

Tem coisas acontecendo no Brasil que minha vã filosofia mal suspeitava. Pegue por exemplo a Hoplon, empresa brazuca que faz o Taikodom, um videogame massivo online de ficção científica. Começou numa salinha acanhada numa incubadora de empresas de tecnologia no alto de um morro com vista para o mar lindo de Floripa. Se espalhou pelos andares do prédio e hoje ocupa 5 salas onde 110 pessoas trabalham feito loucas para conceber, construir e gerenciar um universo virtual onde milhares de jogadores pelo mundo passam seu tempo.

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Taikodom é um empreendimento gigante, ousado, bancado por capital de risco de um investidor e movido a talento jovem e nerd (bonequinhos do Poderoso Thor e do ET e um tabuleiro de Dungeons e Dragons dividem o espaço nas prateleiras com livros técnicos complicadíssimos). Passeamos por lá hoje, boqueabertos. Estava todo mundo ocupado prá caramba construindo um universo, então não deu para batermos longos papos, mas trocamos idéia com muita gente. Todos pareciam orgulhosíssimos de fazer o maior game do Brasil e felicíssimos de passar suas vidas profissionais naquele ambiente onde se pode trabalhar sem sapatos e de bermudas.

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O Murilo, por exemplo, que trabalha na TI, disse que adora o emprego. Eu perguntei se, no fundo, trabalhar na TI de um game não é a mesma coisa do que na TI de uma empresa. É, ele admitiu. Mas, por outro lado, não é. Ele trocou o emprego numa firma por esse, para ganhar a mesma coisa, e tem certeza de que fez bom negócio. “Aqui só se usa camisa de botão na entrevista de emprego”, disse. Essa informalidade, essa diversão, essa paixão vale mais que o salário para ele. E contar para os amigos que se trabalha no Taikodom tem um valor que o dinheiro não paga.

Demais. Senti que eu estava descobrindo um outro universo, que eu nem sabia que existia no Brasil. E confirmei a hipótese que se desenhou ontem com os estudantes de jornalismo com quem conversamos: para cada vez mais gente, realização profissional se mede pela sensação de fazer parte de algo incrível, e não pelo salário.

Precisamos entender isso se queremos fazer uma revista relevante para essa geração.


Mudança

9 novembro, 2008

Tomei café da manhã na sexta-feira com o mineiro Helder Araújo, que tem uma carreira impressionante. Formou-se em design no Brasil, foi estudar na Fabrica, lá na Itália, celeiro de talento e idéias inovadoras, trabalhou na espetacular revista Colors misturando imagem com antropologia, voltou para o Brasil, mudou-se para São Paulo e virou um profissional disputadíssimo. É contratado por grandes empresas, como Fiat e Adidas, para pensar inovadoramente por elas. O trabalho de Helder pode ser assim: viajar para a China, fotografar e entrevistar gente, fazer uma pesquisa monumental, voltar e desenhar o novo produto de uma empresa. Não é legal? O mais impressionante é que ele conseguiu isso tudo nos primeiros 30 e poucos anos de vida. Ou seja, tem uma longa vida produtiva pela frente.

Tivemos uma conversa longa e bem interessante na qual Helder me ajudou a entender melhor o processo de inovação. Ele contou dos planos dele para o futuro – entre eles lançar um site de organização de conteúdo chamado Spix, que já existe em versão fechada e atualmente está em busca de um investidor para, quem sabe, virar um site-fenômeno-internacional se as coisas derem certo. O cara realmente está sintonizado no futuro e tem um trabalho ambicioso, consistente e planejado.

Mas o que mais gostei de ouvir foi a parte em que o Helder me falou das insatisfações dele. Ele disse que decidiu trabalhar menos para empresas e mais para governos e organizações sociais. Ele quer usar o que ele sabe – seu olhar visionário e atento, seu espírito organizado e focado – para melhorar o mundo. E acha que o momento que estamos passando agora no Brasil e no mundo é o começo de uma transformação absurda na história da humanidade – o derretimento de Wall Street, a mobilização contra o aquecimento global e a eleição de Obama são algus sintomas disso.

Eu disse para ele que queria que ele, de alguma forma, nos ajudasse a pensar nossa nova “revista”. Ele ficou animado com a idéia.


O dilema QWERTY vs. Dvorak

9 novembro, 2008


No começo da conversa com o pessoal da colmeia (assunto do post anterior) surgiu um assunto que resume boa parte do que veio depois e do que a gente andou encontrando nos últimos dias. O Denis falou de jornalismo das antigas, e do barulho das máquinas de escrever que foi diminuindo nas redações até sumir de vez. E aí o André Passamani lembrou de como é curioso que a gente ainda use o teclado QWERTY por causa do enrosco das teclas das máquinas de escrever.

Para quem não sabe, a disposição das letras no teclado foi feita desse jeito para diminuir as chances de as teclas emperrarem, deixando letras que normalmente vão juntas na língua inglesa longe umas das outras. Lá pelos anos 1930, o americano August Dvorak ajudou a criar um teclado simplificado que reduziria o esforço de digitar em cerca de 20 vezes. O T está do lado do H e pertinho do E, todas as vogais estão juntas e por aí vai. Enquanto o QWERTY tem esse nome por causa das suas seis primeiras letras, o novo padrão ganhou o nome do seu co-criador.

Mas quando os computadores começaram a aparecer, o padrão adotado foi o QWERTY. Como você pode ver pelo teclado aí na sua frente, continua assim até hoje. Aprender a digitar num teclado Dvorak seria começar tudo do zero, aprendendo a fazer aquilo que já era automático de um jeito totalmente diferente.

É um pouco como mudar para software livre, criar vídeo e publicidade para a internet, fazer uma revista diferente dentro de uma empresa gigante. Naquela época o esforço de mudar o padrão de QWERTY para Dvorak aparentemente não valia a pena. Mas sabe-se lá se os índices de LER e tendinite não seriam bem menores hoje se a mudança tivesse acontecido.

A colmeia acredita que o que importa são as idéias. Acredita em qualidade e inteligência, e acha que o que importa não é crescer e ganhar dinheiro, mas ser foda. Eles estão há pouco tempo na estrada – como em qualquer experimento, pode dar tudo certo, pode dar tudo errado. Para bem ou mal, a gente tem bastante coisa em comum.


Reinventor de coisas

5 novembro, 2008

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Hoje fomos conhecer outro sujeito legal, o Barão – Flavio Barão De Sarno, 30 anos -, lá na empresa dele, a NóDesign, na Vila Madalena, em São Paulo. O trabalho dele é reinventar coisas: um cabide que não esgarça a gola, uma saboneteira feita de restos de sacola e que não junta água, um celular para quem não quer aprender a lidar com botões, uma cadeira que não desperdiça um milímetro de madeira e pode ser guardada sem ocupar espaço, uma bolsa-quadro inspirada em refletores dobráveis de fotógrafos, essa porta que eu fiquei tentando descrever com palavras sem nenhum sucesso:
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Quando precisa explicar para alguém o que faz da vida, Barão diz que é designer de produtos, mas no fundo ele sabe que é mais que isso: ele é um inovador. O trabalho dele é descobrir do que as pessoas precisam e surpreendê-las com o que elas querem. É também repensar conceitos etéreos como “sustentabilidade” e torná-los paupáveis. Todos os objetos deles tem intenção, nada é assim só porque é assim. O pregador de roupa acoplado ao cabide foi imaginado depois que eles observaram que cabides comuns tendem a escorregar para o meio do varal.

Ele ficou contando para a gente como se inova. Primeiro se lista um monte de coisas que dá para fazer. Depois se observa. Depois se observa mais a fundo, tentando entender como as coisas são feitas e como elas são usadas. Depois começa-se a construir a solução para o problema, de um jeito propositalmente tosco, para não perder tempo demais com isso. Barão chama isso de porcótipo, versão imunda do protótipo. Aí se testa o porcótipo, sem piedade: idéias que parecem geniais a primeira vista às vezes não passam pelo primeiro olhar de uma dona de casa exigente. Aí vai se melhorando até ficar bom pacas. Olhando o portfólio dos caras, parece que o método funciona.

Mas o mais louco é que o Barão não se considera um fabricante de objetos simplesmente: ele é mais um resolvedor de problemas. O método dele não serve só para saboneteiras ou potes de shampoo. Bem empregado, ele talvez possa se aplicar a sistemas de trânsito, métodos de ensino, organização de gente, projetos de hospitais. Andando pela sede da empresa, nosso serviço de inteligência detectou num mural na parede o segrego de seu sucesso. Em primeira mão, adianto para vocês o ultra secreto método NóDesign de resolução de problemas:

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